Blog de juvenal-antonio


Pequeno Exercício de Mesóclise (original de abril de 2011)

Nota inicial: Este texto é dedicado ao fascínio mesoclítico do senhor Sergio Zlotnic, cujos pontos dados ao autor motivaram a totalidade do escrito.

Era domingo, de novo, mesmo com a cara cinzenta de outono estampada no céu. O domingo, aliás, pensava, sempre fora um crime contra o céu cinzento e a tristeza torturante da etimologia do trabalho.
Em poucos dias tornar-se-ia uma pessoa respeitável, com um diploma nas mãos e, talvez, algo útil dentro da cabeça. Sorriu levemente dessa bobagem. Estudara muito para que nada entrasse. Devorara livros, madrugadas e fins de semana, numa cruzada de quase morte.
Mas, enfim, se fosse um pouco mais inteligente ter-se-ia dado conta de que fora tudo inútil. Era apenas um amontoado de conhecimentos, frios e sem humanidade.
Detestara cada página, cada linha, cada migalha de sabedoria que os doutos lançaram em sua vida. Intentara se formar apenas para levar ao pai o diploma, mas se vira presa, agora, com o velho doente de cama e impossibilitado de desgostos.
A solução, entretanto, parecia tão cruel – embora tentadora em mesma medida – que preferia ficar em silêncio, para não demonstrar qualquer satisfação ao vê-lo piorar.
Domingo, entretanto, era o esquecimento de tudo isso. Portando, deveria jogar essas coisas cinzentas para longe. Tornar-se-ia uma pessoa melhor e este era o último termo antes de um ponto final.
- Tia, amarra meu cadarço – a frase a arrancara de seus pensamentos tão abruptamente e com tamanha violência que ter-se-ia desmanchado em lágrimas caso não fosse munida da obrigação de parecer forte frente a um ser com tamanha pequenez.
A criança pouco parecia se importar com sua expressão de susto, de quase desespero. Era um ser egoísta que só pensava no próprio sapato. Um projeto de patife que mataria os pais de desgosto...
Riu-se contidamente dessa ideia, no que foi imediatamente correspondida pelo pequeno ser que tão pouca vergonha parecia ter de se achegar a desconhecidos com qualquer conversa mole.
- Já disse que quando quiser eu faço! Ter-me-ia poupado da vergonha de incomodar os outros (...) Perdoe meu filho, não lhe dei tais modos – uma pessoa a mais na sua cabeça era quase um crime, mas a resolveu aceitar. Era uma mulher pequena, de modos pequeno-burgueses, com um sorriso pequeno, sendo apenas bonita demais para quem deu à luz um serzinho daqueles. Seus olhos pareciam pedir algo que não fosse apenas aceitação, de desculpas. Buscavam uma réstia de ternura em qualquer lugar que fosse, como se viessem de todos os horrores de Guernica ou de Moscou.
- É domingo... Que te parece?
- Tornar-te-ás uma pessoa melhor...
- Tornar-te-ia, tu, se no meu lugar estivesses?
- O teu lugar cabe somente a ti.
- Falas com se não mendigasse migalhas de amor em todo lugar...
- Podê-lo-ia ter e tu bem o sabes.
- Tornar-me-ei uma pessoa melhor...
Fez-se, então um silêncio, de domingo, de crença no sol, ou no renascimento de alguém. Sentiu que algo no ar anunciava o inverno. Mas não mais importava. Era apenas mais um prenúncio longínquo de primavera. “Uma pessoa melhor”, repetiu finalmente enquanto sorria para a criança.
Levantou-se ainda podendo ver o vento levando a mulher, junto ao filho, para um canto em que só a lembrança os alcançaria. “Tornar-se-ão lembrança”, repetiu ternamente enquanto pensava no acidente, no filho e em tudo que não pudera fazer...



Escrito por juvenal-antonio às 08h28
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Perguntas Secretas sobre a Igreja

As pessoas mais próximas a mim sabem que fui seminarista. Sim, morei na igreja, estudei para ser padre, essa coisa toda. Passei quatro anos e meio lá dentro, descobri que não era cristão, e, no que seria meu último mês de vida seminarística, minha psicoterapeuta me apresentou a uma menina, com quem nunca tive nada, mas que me fez compreender que eu tinha mesmo era que ir embora, deixar aquele lugar.
Mas isso já faz um tempo, alguns anos para ser mais exato. E, mesmo depois disso, continuo a ser  interpelado incansavelmente por inúmeras pessoas bastante interessadas em compreender a "verdade por trás" da vida na Instituição. Muitas dessas doutas criaturas me encontram nem sei como, mas me encontram, seja virtualmente, seja pessoalmente.
Assim, a fim de responder a cada uma delas e, finalmente, poder continuar a minha vida; organizei e publico, abaixo, uma pequena compilação das dez perguntas mais comuns que me fazem, as quais trazem todas as informações de que disponho. Espero que essas humildes palavras venham a contribuir com o universo de pesquisa desses incansáveis desbravadores e que, assim, não seja mais necessário dispenderem seu tempo me procurando. Segue a lista:

1 - Por que você saiu da Igreja? Foi mulher, não foi?

Sim, foi mulher. Eu descolei um "harém em miniatura", estava namorando oito mulheres ao mesmo tempo. Daí quatro delas engravidaram e uma pegou bicho de pé e eu tive que ir embora para cuidar das minhas famílias.

2 - Vocês pulavam a cerca lá?

Bem, na verdade lá tinha um muro. A gente sempre o pulava, sim. Adorávamos brincar de saltar muro, pois, afinal, não tínhamos nada para fazer.

3 - É verdade que os padres são pedófios?

Sim, essa é uma verdade universal. Os padres têm um sistema internacional de tráfico de coroinhas, que se tornam escravos sexuais principalmente na Europa. Além disso, os mesmos mantêm um projeto secreto de meninos, que são criados em bases subterrâneas na Rússia (e não no Vaticano, como todos pensam) e exportados para as mais diversas partes do mundo.

4 - Os padres molestaram você?

Sim. Eu era molestado de oito em oito horas, todos os dias, como parte de um ritual secreto chamado "F.O.D.A.". Os praticantes dessa crença milenar acreditam que manter relações genitais com seminaristas três vezes ao dia dá força, virilidade e a vida eterna. É uma seita da qual participam inúmeros padres, bispos e até gente da alta hierarquia da Igreja.

5 - É verdade que a Igreja inventou a bíblia?

Exatamente. Havia um papa, cuja identidade foi escondida na história. O nome dele era "Biblícitos Jernonimus II". Ele escreveu a bíblia inteira em um período de 14 anos. Ele também foi o responsável pela construção da lendária cidade de Cíbola, a qual se perdeu, infelizmente, mas cujos relatos estão dispersos nos mais doutos meios acadêmicos.

6 - É verdade que o papa é a besta (adoro essa pergunta)?

Sim, ele é uma besta. Embora tenha oito doutorados "honoris causa", ele aceitou governar uma instituição que abriga seitas secretas, trafico de coroinhas, invenção de livros e outras mentiras...

7 - É verdade que os padres são gays (é incrível o interesse sexual nessas pesquisas)?

Sim, a quase totalidade dos padres são gays. Eles, inclusive, andam de vestido, como você já pôde reparar. Usam vestido preto na rua e outro branco na Igreja. Dependendo do lugar, as tendências de moda apontam para vestidos cinza, palha ou marrom, para combinar com a paisagem. Alguns, ainda, enfeitam suas camisolas, ou melhor, vestidos, com faixas coloridas e um chapeuzinho bem fashion.

8 - Por que os católicos adoram imagens?

Essa resposta não é segura, sabe. A explicação mais provável é que, na Idade Média, quando surgiu a adoração de imagens, não havia futebol. Desse modo, a Igreja precisou encontrar formas de divertir as pessoas e, por isso, fê-las montar inúmeras oficinas e olarias onde se produziam, em escala, estátuas de personagens criados pelo papa a quem me referi na resposta 5. Esse foi, aliás, o verdadeiro início da Revolução Industrial.

9 - Vocês "pegavam" as freiras na igreja, né?

Na verdade, não. Estávamos ocupados pulando muro, desenhando vestidos e sendo molestados de oito em oito horas.

10 - Por que os padres tiram dinheiro do povo e não acontece nada?

Bem, essa é uma questão complexa, que inclui as 13 famílias Illuminati na atualidade, os chefes religiosos (inclusive padres), a coca-cola, o Fidel Castro e o José Serra - atual representante da "FATIA" no Brasil. Existe uma rede internacional de fluxo de dinheiro, baseada em enganar as pessoas e convencê-las a dar dinheiro para instituições religiosas, políticas e industriais. Esse fluxo visa manter um equilíbrio de poder econômico entre os ricos, de um lado, e a manutenção de pagantes, de outro.


Espero ter-lhes podido ajudar... ;)



Escrito por juvenal-antonio às 14h56
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Sem título

A liberdade é o tormento eterno. A liberdade é o inferno, não os outros. Origem interdependente, livre arbítrio, escolha, essência, existência, conhecimento intelectual de deus... Respostas tão pequenas, todas, embora a grandeza de seus autores. Nenhuma diz sim senão pela necessidade sistemática de um sim. Continuamos desamparados, pois. A única resposta é que não há resposta, dependendo da resposta, do tamanho da resposta. Respostas pequenas, são as que se empilham, porque a resposta grande, se existe, tange o caos escuro do além-inteligível.
Cansei de ser e não ser livre. Apenas queria vegetar...



Escrito por juvenal-antonio às 23h09
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Um rasgo de silêncio e saudade

Texto mal vomitado numa noite sem luz em que crianças não nascem, são cuspidas ao mundo, no escuro, sem que mesmo seus traços mais defeituosos se possam notar.

Aqui dentro faz um pouco de frio. Lá fora cai uma fina chuva, quase garoa, muda, incapaz de ser tempestade. A luz que cobriu a sala durante a tarde de ontem ainda está nela, um tanto frágil, mas forte ainda para obrigar qualquer passante a sua lembrança.
Foram tão poucos segundos, ainda que tudo tenha durado horas, até que a luz rompesse a linha e fizesse de tudo, de novo, este grande silêncio, com essa garoa insistente, que desde ontem espreita sorrateiramente a alma de tudo o que há por dentro.
Não há absolutamente qualquer coisa, de nenhum jeito, que consiga viver no silêncio, na penumbra, armazenada dentro de sua própria alma, como se a nenhuma chuva devesse qualquer pequeno ou grande pedaço de pequena ou grande satisfação.
A garoa cai, fina, em silêncio, incessante, mesmo que não se a sinta, mesmo que seu rastro seja apenas o cheiro costumaz do fogo que tão devagar vai apagando, num gesto de paciência cega, ao passo que tão obstinada e fortememnte feroz.
Pode-se fechar os olhos, fazendo do escuro um "para sempre". Pode se abrir os olhos, transformando-o num apenas "quando em vez". Pode-se ainda dormir de luz acesa, num discreto fingir de não haver chuva.
Mas, enfim, a chuva continua a cair, muda, forte, imortal...



Escrito por juvenal-antonio às 23h41
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Viagens de Domingo - Parte 1

Sábado foi meu aniversário. Para variar, nada mudou. Continuei o neurótico instável e sensível de sempre. Ao menos eu achava isso até receber aquela ligação:
- Alô, professor? Pode me dar uma aula sobre sustentabilidade amanhã? É para um trabalho...
"Amanhã", no caso, era domingo. Como é evidente, o pedido foi incomum, não por conta da ideia de descanso (geralmente não folgo aos domingos), mas por alguém querer aula num dia assim.
Movido pela urgência de sobreviver, muito menos do que pelo interesse no assunto, disse, do jeito que deu, um "sim" quase firme, típico da minha natureza.
Sei que dormi mal naquela noite, sentindo que alguma coisa aconteceria na empreitada da manhã seguinte (sim, ele marcou a aula para as 9 da manhã!). Não imaginava o que viria, mas, seduzido pela intuição, só consegui pegar no sono lá pelas duas e tanto da madrugada.
Levantei às seis, com o barulho irritante do meu celular - um aparelho com quase sete anos de uso e com um toque monofônico provavelmente patenteado pelo capeta - a me avisar que a coisa já começara.
Tomei banho sem nem ver e saí, ainda bem sonolento, em busca do fim de mundo onde decidira me meter. Ou melhor, tá certo que Diadema não é o fim do mundo. Mas é outra cidade, e totalmente contramão no caso dos domingos.
Para quem não é paulistano (nem da cabeça chata ou meio chata, como eu), devo informar que Diadema não é um roteiro para feriados, fins de semana e afins. É preciso embarcar em pelo menos dois ônibus, ficar uma hora esperando em um terminal (sim, há inúmeros terminais por aqui. Uma confusão!) e ainda torcer para a linha escolhida estar "em operação".
Pois bem, nessa altura, já estava eu em pé no terminal (sim, estou protestando), esperando meu ônibus, quando, de relance, li o letreiro de uma van que encostava próximo ao meu local de embarque.
A princípio, imaginei que fosse alguma consequência do inevitável sono que sentia; mas não, estava mesmo lá, ao alcance dos olhos, ao alcance de qualquer olho, ao alcance dos meus olhos: o pequeno veículo anunciava uma viagem para nada mais nada menos que o País de Gales. Isso mesmo! O PAÍS DE GALES!!!
(Continua...)



Escrito por juvenal-antonio às 21h46
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